Ele tinha três anos quando ganhou o primeiro videogame. Eu era nova, tinha grana para comprar, todos ao meu redor faziam o mesmo, então por que não?

No começo é fofo, uma criança pequena sabendo como ligar, mexer no controle etc. E a coisa vai evoluindo de forma muito sútil. Não é do dia pra noite que o mau hábito se forma ou começa a causar problemas.

Ele desligava quando pedíamos, se interessava por brinquedos e passeios. Era maravilhoso pra mim, afinal, começamos com o Wii, que na época era considerado bacana por ser interativo. De quebra eu tinha tempo livre. Com 20 anos e um filho pequeno, foi o melhor que eu consegui balancear.

Só que meia horinha de tela pela manhã, mais meia na hora do almoço, quarenta minutos depois da escola, um tempinho depois do jantar, se somam e se acumulam. E a gente nem percebe, não parece ser tanto. Se alguém me perguntasse sobre tempo, coisa que nunca aconteceu, todo mundo achava normal, eu provavelmente diria que ele ficava só uma hora.

Como eu disse, é difícil computar.

Aos poucos, e repito mais uma vez, acontece devagarinho, não é perceptível, ele foi dando preferência as telas. Passeios, antes divertidos, passaram a ser chatos. Veja bem, naquela época não existia tablet, só era possível jogar os games em casa. Foi então que comecei a reparar que, disfarçadamente, tudo virava motivo para voltar pra casa. Não era de caso pensado, ele ainda não tinha essa consciência, estou falando de uma criança de 5-7 anos.

Daí pra frente as mudanças de comportamento se tornam bem mais notáveis. Cada vez que você pede para desligar, há uma mudança assustadora de humor. Começa com uma cara feia e uma batida de porta. Até um dia que rola crise de choro e você se assusta. Em negação, dizemos para nós mesmas que é sono, cansaço, coisa de criança. Só que a cena se repete. E de novo, e de novo, e de novo. Eu não sei nem nomear os sentimentos que esse texto me traz. A fase entre 7-9 anos foi barra. As maiores brigas que tive com meu filho foram por causa de aparelhos eletrônicos. Esse “equilíbrio” que muita gente diz por aí, só existe se você bate o pé e impõe. Só existe se você estiver disposta a supervisionar os limites que estabeleceu. Leis, no papel, são apenas leis. E é tão difícil ser consistente com tais limites. Abre-se excessões no dia que estamos cansadas, exceção no dia de chuva, outra quando tem visita em casa. Os limites vão escorregando e fica confortável. Criança nenhuma alcança equilíbrio sozinha. É por isso que meu filho se bateu tanto. Eu imatura, não soube lidar. Ele, menor ainda, foi fisgado pela dopamina que esses games trazem. Não falo isso melancólica, não quero comentários de “não se sinta assim”, falo consciente da minha enorme parcela de responsabilidade. Graças a essas difíceis, doídas reflexões, minhas atitudes, hoje em dia, são completamente diferentes com os três menores.

Não, não vai melhorar com o tempo. Ao contrário de muita coisa na maternidade, o relacionamento com eletrônicos, quando não saudável, não é uma fase! Não vai passar, assim, do além!

É verdade que algumas crianças lidam melhor com a tecnologia do que outras. Só que acredite, com 4-5 anos é bem cedo para avaliar. Cada família é única, há aspectos genéticos, assim como influências externas. A pergunta é, até onde você tá afim de arriscar? Eu não vim aqui julgar. Não vim aqui dar vereditos, até porque eu também não os tenho. Vim aqui contar um pedaço da nossa história. Essa semana, me marcaram em um meme que dizia assim: “eu poderia não dar o tablet para o meu filho no restaurante, assim como eu poderia fazer o meu próprio sabão em pó. Só é burra quem quer”.

Quando você ler frases assim, reflita. Se esforce para pensar e refletir sem levar em consideração “o que tá todo mundo fazendo”. Quando ler memes assim, lembre-se da minha história, que é similar a de milhares de outras famílias, que muitas vezes não gostam de falar a respeito. E é com o meu coração de mãe aberto e vulnerável que te digo, as centenas de horas de paz e sossego que os games me deram foram pagas com juros, correção, lágrimas e dor.


Por: Rafaela Carvalho 

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