Quem dera poder prever e controlar tudo. Quem dera planejar uma semana inteira de sol na praia e chuva fininha na vidraça na noite de domingo pra segunda. Quem dera ordenar a vitória do nosso time e estabelecer a presença dos amigos quando a gente mais precisa. Quem dera controlar a nostalgia e evitar a melancolia. Quem dera decretar que fica proibida a falta de saúde de quem a gente ama. Quem dera instituir a reciprocidade e regulamentar a camaradagem.

Mas o ano, o mês, o dia seguinte, a vida… não marca hora, não cumpre metas, não obedece prazos. Vez ou outra a gente acerta, vez ou outra a gente escolhe o passo certo, vez ou outra somos surpreendidos com o jogo equilibrado. Viver é dar conta de sair da rota, da estrada, da rotina e aceitar a impermanência e a incerteza. Encarar o futuro e entender que, apesar dos planos, ele é incerto. Apesar das agendas, planners, organização e calendários, ele é desencontro. E, assim, aceitar que nem tudo obedece a lógica, mas em contrapartida há um milhão de bênçãos querendo chegar e contrabalancear a fragilidade dos dias.

Viver é querer arrematar e não ter linha suficiente. É achar que precisa de fôlego para subir uma montanha e encontrar um atalho. É esperar raios de sol entrando pela janela e descobrir que ele deu a volta na casa e está iluminando o quintal inteiro. É sair descabelado e trombar no grande amor. É carregar o guarda chuva na bolsa e ganhar carona no final do dia. É jogar os dados e ganhar na loteria.

Porém, de vez em quando acontece. De vez em quando nossas vontades coincidem com os planos de Deus e passamos naquele concurso, somos admitidos na empresa dos sonhos, fechamos aquele contrato, recebemos o telefonema esperado, fazemos aquela viagem, encontramos aquela pessoa. Vida é terra fértil pra quem não desiste de semear e adubar. Pra quem insiste em jogar os dados até acertar. Pra quem consegue suportar os silêncios e vazios sabendo que tudo se renova quando a gente se dispõe a ouvir o que o universo tem pra nos contar. E ele conta…

Tropeçamos, escolhemos errado, criamos expectativas, nos enganamos, ficamos em pedaços. Mas depois descobrimos que temos a capacidade de sermos inteiros novamente. E passamos a ressignificar as perdas e dores. E aprendemos a nos reconectar conosco mesmo, com nossa face mais autêntica, com quem queremos ser, com nossas limitações e vulnerabilidades. E começamos a driblar as imperfeições da vida e de quem convive conosco. E adquirimos a capacidade de jogar os dados e aceitar o resultado que vier, sabendo que tudo são ciclos, fases, encontros e desencontros. Após o inverno da alma, em que nos é exigido paciência e resiliência, vem a fase do encontro, em que damos a mão à existência, fazendo as pazes com nossa história. O mundo gira, gira…

Momentos bons são tecidos a todo instante, mas a gente tem que estar pronto para que eles cheguem de mansinho, embaralhando o ritmo conhecido de nossa vida e nos presenteando com folhas em branco e uma inspiração linda para escrever nossa história com coerência, otimismo e coragem. Grandes mudanças estão a nos esperar, mas a gente não pode ter medo de lançar nossa rede ao mar.

A gente não consegue prever tudo, mas a vida surpreende nos detalhes. Vai ter trevo de quatro folhas, voo sem turbulência, nota esquecida encontrada no bolso do paletó, quebra cabeças de mil peças formando o derradeiro desenho. E então, depois de um gesto gentil no trânsito ou de um elogio sincero no trabalho, talvez a gente consiga perceber que valeu a travessia e os malabarismos, valeu a espera e a insistência, valeu a coragem e a resiliência. Vida é mistério…

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Fabíola Simões
Fabíola Simões não é jornalista nem publicitária, mas desde menina adora bordar histórias. Dentista por formação e profissão, inventa enredos no blog "A Soma de todos os Afetos"

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