Carta de apoio às mulheres.

Na verdade, às mulheres não-feministas.

Pq acredito que nada do que vou dizer aqui é novo às mulheres feministas, que tem em seus horizontes a libertação feminina do falopoder.

Sim, é sobre o caso do jogador de futebol que está sendo acusado de crime de estupro.
Sim, sei bem que estamos bastante cansadas do tema. São dias e dias em que toda impressa, toda rede social, todo grupo de pessoas, todos falam sobre este assunto. É cansativo. Mas que bom.

Estamos diante de um momento histórico.
O veredicto deste caso vai ajudar determinar, e muito, como novas (e velhas) vítimas irão agir a respeito da violência sexual que sofrem. E todas deveríamos estar preocupadas com isso.

O assunto violência sexual nos é muito caro.
Ou, ao menos, deveria ser.

O terrorismo sexual ao qual somos socializadas é a base da violência de gênero que é praticada contra cada uma de nós, mulheres. Desde “o fecha as pernas”, com 3 anos de idade, ao não use esse short curto aos 8, coloque soutien aos 11, não fique perto de meninos aos 13, não ande sozinha aos 15, não saia a noite, não fale com estranhos, não confie, não beba, não aceite nada, não vá pra casa de, não queira, não pense, não, não, não. Proteja-se constantemente, vigie constantemente. Pq homens tem aval social para praticar violência sexual. E a culpa vai ser sua por ter facilitado, por ter se posto em risco, por ter permitido. Terrorismo psíquico.

Introjetamos estes conceitos. No fundo, toda mulher sente-se culpada por toda e qualquer violência sexual que sofra. Desde o assédio público (será que foi minha roupa, será que eu tava dando mole?), ao assédio físico (será que dei a entender que queria, será que facilitei?) ao abuso de fato (será que fiz errado em deixar de consentir no meio do caminho, fiz mal em não querer mais?), sempre vamos supor que temos parcela de agência sobre o que o abusador no fez.

Pq? Pq somos socializadas para isso. Somos educadas para agradar e servir aos homens. Somos criadas para estarmos atentas e vigilantes às suas necessidades. Para sermos seus complementos naturais. Pq só através dos homens temos acessos aos quais somos alijadas. Pq é deles o poder político, econômico, religioso, social, institucional. E o preço que pagamos pelo ingresso social é o servilismo (doméstico, parental, sexual). E esse “saber” a gente adquire bem cedo.

E qual é o apelo desta carta?

Na verdade são dois.

O primeiro e mais urgente: se vc está cansada deste assunto, pule as postagens. Filtra. Descanse.

Não aja como soldada patriarcal para descredibilizar a vítima e nem desdenhar do debate.
Aliás, é preciso ser bastante insensível para não entender que toda teoria escrita e debatida agora, todo o acúmulo, é de vital importância para os novos entendimentos e jurisprudências de casos como este. Então tenha paciência. As mulheres do futuro agradecerão.

Segundo: seja sororária. Caso você tenha saúde mental para isso, em algum minuto do seu dia, abraça a Najila Mendes apertado, chame ela para conversar de mulher (que mora em vc) para mulher (que mora nela). Papo-reto.

Sabe o que vc vai descobrir? Que ela foi ao encontro de um cara com quem ela queria transar. Com quem ela criou um vínculo, seja sexual, seja afetivo, e acreditou que teria um encontro seguro. Lá chegando, não só foi frustrada pelos maus-tratos físicos e emocionais, como foi vítima de um crime, na medida que teve seus pedidos de parada de investida sexual negados. IML constatou hematomas. Laudo psicológico constatou estresse pós-traumático. Mas ainda que não houvessem laudos, ela nos disse que sofreu abuso e, como feministas, isso deveria nos bastar.

Mas houve um segundo encontro. E este é o ponto sensível que tem dividido as opiniões (como se estupro fosse caso opinativo).

Houve. Ela estava sozinha, num país estranho, numa língua estranha, sem familiares, sem amigos, sem ninguém que pudesse confiar, tenho como único número de pessoa conhecida o do seu agressor. Ela quis conversar. Ela quis explicações. Ela, com raiva, o agrediu, como se fosse possível transferir de volta para ele a dor que estava sentindo. Ela disse “você sabe o que você fez” esperando que ele admitisse, se redimisse, se desculpasse, acolhesse sua angústia, desfizesse o que fez.

Burra? Não. Treinada. Como cada uma de nós.
Quantas mulheres você conhece (senão vc mesma) mantiveram relações violentas e abusivas por pequenos, médios, enormes períodos de tempo? Que foram abusadas e voltaram, que foram violentadas e voltaram, que foram agredidas e voltaram? É um fenômeno tão comum e tão forte na socialização feminina que tem até nome: estocolmização.

A dor é tão intensa e tão insana de ser agredida e violentada pela única pessoa que vc julga capaz de te proteger que seu cérebro se recusa a vê-lo como algoz, na tentativa desesperada de proteger sua psique de mais um trauma. Por mecanismo de defesa, você heroiciza seu algoz, amando-o ou seduzindo ou conectando-se a ele, acreditando (com razão) que ele será capaz de livra-la da agressão que ele mesmo cometeu ou comete contra vc.

Toda mulher já fez isso. Seja com o pai, com o irmão, o tio, o amigo, o namorado, o marido. A gente é treinada para perdoar o abuso, romancea-lo, impelidas a dar amor ao agressor para ele “se tornar uma pessoa melhor”. Boas mulheres edificam homens, nos ensinaram. Eles só precisam ser maternados corretamente, compreendidos corretamente. (No mais, a culpa é sua, lembra?).

Demora um tempo para a gente aprender que não (e há, ainda, quem não aprendeu). Demora um tempo para a ficha cair. Najila precisou de 15 dias para elaborar o que passou e tomar coragem para fazer a denúncia pelo crime que sofreu. Existem mulheres (como eu) que não denunciaram nunca e nem vão. Pq ninguém acredita em suas palavras. Pq crime de estupro, se não tiver filmagens, não tiver testemunhas, sua cara não estiver comida na porrada ou seu peito esfaqueado ou resquícios de arma de fogo passada na sua testa, é uma mera questão opinativa para o patriarcado. Se foi sexo ou abuso. Se a vítima está mentindo ou não. Tudo é uma questão de perspectiva (dos homens).

O fato é que homens não estão dispostos a falar verdadeiramente sobre o assunto e entender como violência sexual é pilar constituinte da socialização feminina. Exatamente pq eles não querem abrir mão do terrorismo sexual, pq violência é arma de poder. E poder é tudo que eles tem.

E no fundo, a discussão tem sido pautada não na verdade de Najila, do jogador de futebol ou do fato em si, mas em nós mesmos e nossos valores. Bem como no projeto de sociedade que queremos.

Eu luto por uma sociedade segura para mulheres. E por isso, estou irremediavelmente ao lado de Najila e esperançosa que este debate (cansativo, eu sei) e desfecho do caso, agregue positivamente à luta das mulheres pela libertação e por nossa sobrevivência.


Autoria: Daiane Novaes

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